Entendendo a degustação de vinhos: Palato de Adega

O palato de adega é um fenômeno relativo à acomodação do paladar do provador de vinhos. E não pensemos que o problema só se presta aos avaliadores profissionais. Não podemos nos esquecer que cada um de nós, enófilos, estamos sempre procurando avaliar o vinho que bebemos, ao menos para sabermos se vamos querer voltar a bebê-lo, se seu preço valeu a pena, em quais ocasiões preferiríamos degusta-lo, etc.

O que ocorre é que, como os demais sentidos, o paladar tende a se acostumar, até com certa rapidez, ao padrão de gosto com o qual ele se mantém em contato. Assim é comum que se vamos a uma vinícola na qual todos os vinhos apresentam uma acidez baixa, inicialmente notaremos este fato, mas quanto mais tempo passarmos a provar tais vinhos, mais a percepção do palato desta “baixa acidez” irá se embotar, e teremos a tendência de, gole a gole, passarmos a achar que a acidez é adequada.

Esta ocorrência pode ser mais preocupante para o próprio produtor, que ao longo do tempo, caso se restrinja a provar somente seus próprios vinhos correrá o risco de não se aperceber de eventuais defeitos na sua produção.

Há o risco para o provador profissional que avalia, por exemplo, uma determinada safra de uma determinada região, de acostumar o palato às características daquela safra e tender a avaliar os vinhos apenas uns em relação aos outros, sem se aperceber das características individuais de cada vinho no contexto geral da vinicultura, o que comumente poderá induzi-lo a uma avaliação equivocada.

Mais perigoso, porém, me parece o que poderíamos chamar de “palato de orelha” por um lado, e por outro o que poderíamos chamar de “palato de bolso”.

O pior deles, creio, é o que chamo de “Palato de Orelha”. Muito comum em enófilos que unem pouca experiência a ingenuidade e esnobismo. Ocorre com aqueles que, geralmente com medo de se aventurar em uma avaliação própria preferem se fiar em comentários que ouvem ou lêem, quase sempre sobre vinhos renomados e claro que bastante caros, e comumente desprovidos do devido senso crítico, passam a repetir os comentários memorizados em contextos em que os mesmos muitas vezes não se aplicam, e outras tantas, o que é pior, sobre vinhos que nem se quer provaram. Estes perdem todo o prazer que a enofilia nos concede e se arriscam a tornarem-se muito rapidamente um dos temíveis “enochatos”.

Já o que chamo de “palato de bolso” ocorre quando por razões de capacidade financeira o enófilo tende a só provar vinhos muito baratos ou somente vinhos muito caros. Os primeiros passam a achar que os mesmos são “mais do que bons” e chegam a conclusões absurdas como a de que os vinhos mais caros não apresentarão nada de melhor que aqueles aos quais ele está acostumado, justificando o aumento de preço por puro marketing e entendendo como uma tolice o consumo de tais vinhos. Já aqueles que acostumam-se exclusivamente aos vinhos muito caros, deixam de descobrir muitos produtos de excelente qualidade, ás vezes até superiores à alguns do seu consumo usual, e podem até diminuir a percepção do prazer no consumo de vinhos tão especiais pelo princípio descrito acima do “palato de adega”.

Sobre o palato de adega, creio que mais uma vez a virtude está no meio termo. Devemos evitar o consumo de produtos extremamente baratos, em termos de preços Brasileiros diria abaixo dos R$ 40,00, pois na maioria das vezes serão de baixa qualidade, bem como devemos evitar o consumo de produtos extremamente caros, novamente em termos de preços Brasileiros diria acima de R$ 600,00, pois na maioria das vezes poderemos encontrar vinhos equivalentes aos melhores do mundo nesta faixa de preço. È claro que, se pudermos, devemos experimentar os vinhos mais caros e famosos até para obtermos a certeza pessoal quanto ao seu comparativo com os de faixa de preços mais razoável, o que não podemos é deixarmo-nos convencer de que só estes ou aqueles são realmente bons. Nunca devemos nos esquecer, em fim, de que a diversidade no mundo enológico é uma das suas maiores virtudes e ela também se aplica às características de preço. 

Veja alguns dos nossos vinhos com excelente relação de preço e qualidade.

Paco Vintage     

GSM

Gaia

UM BRINDE A TODOS

Alexandre Franco